Deficiência auditiva, invisibilidade social e deficientes-imbecis sociais

Resgatei este texto que publiquei no “pai” (ou precursor, como preferir) deste blog.

Apesar da distância entre as datas original e da republicação e das circunstâncias em que o reposto agora (com mínimas mudanças), para mim, os conceitos nele presentes continuam os mesmos.

Perdas são lutos.

Segundo a psiquiatra norte-americana Elisabeth Kübler-Ross, qualquer forma de perda pessoal catastrófica é equivalente à perda de algum ente ou indivíduo próximo, o que, portanto, a torna um luto.

Ao saber o fato de que me tornei um deficiente auditivo há 2 anos e meio (à época), você não precisará pensar muito pra chegar à conclusão de que experimentei ou que vou experimentar as fases do luto descritas na Psiquiatria.

Para Kübler-Ross, qualquer luto pode te levar a cinco estágios: negação e isolamento, raiva, barganha, depressão e aceitação.

Acho que ainda estou na fase da raiva. Ainda. Menos intensa, mas ainda presente.

Nestes dias em que tenho convivido com as agruras da deficiência auditiva tenho tido a certeza de que algumas pessoas acham que, quando você perde a capacidade de ouvir, você automaticamente se torna invisível.

Antes de irmos adiante, caro leitor, minha experiência com esse fenômeno é meramente empírica. Então, não espere destas linhas um estudo científico exaustivo sobre as relações existentes entre a visibilidade social e a deficiência auditiva.

Uma explicação para esse fenômeno pode ser o fato de que talvez estas pessoas associem a visibilidade social à capacidade de manter um diálogo de forma convencional.

Talvez.

A mim, parece que estes “indivíduos” pensam: “Por que vou me importar com a presença de alguém que não pode me ouvir e não pode entender os meus relatos?”, o que não deixa de ser uma posição muito egoísta e preconceituosa.

Mas essa visão preconceituosa sobre o conceito convencional de entender é assunto para outro texto…

Voltemos.

Não são  poucas as vezes, especialmente, em lojas, consultórios, estabelecimentos comerciais etc, nas quais os atendentes e médicos simplesmente ignoram minha presença quando veem que eu estou acompanhado de algum ouvinte.

Nessas ocasiões, agradeço por conseguir falar, ainda que precariamente, e faz-se necessário que eu me imponha e relembre aos meus interlocutores que o fato de ter perdido a capacidade de ouvir não me fez menos merecedor de consideração e do mínimo de educação e cortesia.

Pode ser lógico para outras pessoas, mas, pra mim, como deficiente auditivo, isso não é somente uma questão meramente comunicacional.

Também não é uma questão de falta de treinamento. Do mesmo modo, também não é uma questão de que “nossa sociedade não prepare as pessoas para lidar com as diferenças”.

É uma questão de falta de educação e empatia.

Acima de tudo, é uma falta de humanidade!

Uma das coisas mais importantes que herdei da educação que me foi dada por minha mãe é o hábito de falar com todos, gente de todos os segmentos de qualquer que seja o lugar onde eu esteja. Não tira pedaço.

Um cumprimento, mesmo que seja um aceno de cabeça, um aperto de mão. Tudo isso faz maravilhas pela auto-estima de cada um.

Se posso agir com o mínimo de cortesia com você, estando você ou não no mesmo nível que eu, por que você não pode?

Se não puder, procure o próximo zoológico e interne-se. Aproveite e faça um tratamento intensivo para sua “deficiência social” porque animais terão muito a lhe ensinar sobre relações sociais. Acredite.

Ironicamente, mesmo trabalhando em uma instituição que, em tese, preocupa-se com a justiça e bem estar sociais, depois que perdi a audição, à exceção dos colegas com quem trabalho diretamente – os quais, em sua maioria, conheço desde os tempos do curso de Comunicação Social na universidade – conto nos dedos das mãos quantas pessoas que não ignoram a minha presença quando entram em algum ambiente em que eu já esteja.

É claro que lá há outras razões para a tendência de submeter as pessoas à invisibilidade social, mas isso também é assunto para uma abordagem mais ampla.

Pode ser carência minha, mas isso não deixa de me lembrar de que não sou o único deficiente auditivo do mundo e que as pessoas na mesma situação que eu são condenadas diariamente à invisibilidade social justamente somente porque não são organicamente iguais à maioria.

Infelizmente, isso vai me obrigando a aprender a ignorar a presença dos deficientes sociais também e me tornar alguém que não quero ser.

Sou humano, com todos os direitos.

Com qualidades.

Com os defeitos de qualquer pessoa.

E, surpreendentemente para alguns, com sentimentos.

Bem educado.

Não sou invisível e/ou translúcido.

E, graças a Deus, sou deficiente auditivo mas não sou deficiente social.

Deficiência auditiva não é invisibilidade!

Viu?

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