Vasos de vidro, experiências e “fragilidade”

vaso

Não tenho a habilidade de ir a um ambiente, sozinho, abordar alguém, à procura de um vínculo de amizade, amoroso, sexual ou de qualquer natureza.

Tímido como sou, não consigo passar mais do que três segundos encarando alguém ou mesmo amigos, conhecidos etc sem desviar o olhar. Além de introvertido, sou, em alguma medida, caseiro e até eremita, com sumiços periódicos.

Por isso, nunca havia me imaginado me sujeitar a fazer o que está descrito no começo destas linhas numa metrópole de 8,17 milhões de habitantes. Principalmente, sozinho.

Será mais fácil? Mais difícil? Não sei.

É difícil prever, mas estou a 5 dias de descobrir isso, em uma experiência inédita para mim e, por isso mesmo, também assustadora. Afinal, na última vez em que tomei uma grande decisão na expectativa de ter novas experiências quase tudo deu errado.

Sim, deu errado, mas se você estagnar sua vida toda vez em que uma coisa não sair como planejada, não terá vivido. Também não terá aprendido.

Apesar do óbvio medo de que acontecimentos anteriores se repitam, também tenho que lidar constantemente com algumas pessoas que me veem somente como um “vaso de vidro”, sem cérebro, sem discernimento, em estado vegetativo, em uma UTI, ligado a um monte de cabos e aparelhos.

Talvez sem notar, elas estão sendo preconceituosas e, pior, ofendem minha inteligência e meu bom senso.

Grande parte destas pessoas esquece que quem passou por 14 cirurgias e carrega as cicatrizes desses procedimentos. Sou eu quem toma 5 medicamentos todo dia, faz exames de sangue semanalmente, lida com níveis de diversas substâncias. Também sou eu quem vai frequentemente a uma infinidade de médicos de diversas especialidades.

Para elas, é muito fácil julgar minha “fragilidade”, sem passar pelas mesmas coisas a que fui submetido em 41 anos de vida. Frágil postura esta delas, né?

Menosprezam, ainda, o fato de que toda pessoa precisa de bem estar psicológico e que isso não passa somente pelo aspecto orgânico. Estar bem não significa estar respirando. Frágil concepção.

Não vou dizer que nunca pensei em desistir dessa experiência, mas ao contabilizar as coisas que tentei fazer ou fiz por mim só vi e vejo um combo de consultas, exames e procedimentos médicos. Um livrinho de plano de saúde.

Não quero passar minha vida assim. É chatão. E desgastante.

Alheias à minha necessidade, essas pessoas não conseguem conceber que um indivíduo, saudável ou não, deve, pelo menos, uma vez na vida, embarcar numa jornada para afastar-se da rotina, conhecer outros locais e outras pessoas e descobrir seus limites.

Também ignoram o sentido de uma viagem, por razões convencionais ou para autoconhecimento: tentar repensar a vida, ver questões sob outros ângulos, achar uma nova pessoa em si e, acima de tudo, aprender a amá-la.

Mas não estou fazendo isso por elas.

Estou fazendo por mim.

Ainda que eu odeie a expressão “encontrar-se em si”, sei que é possível fazer isso e quero saber como. É o primeiro passo que dou em direção a isso em tempos pós-surdez.

É claro que não foram poucas pessoas que me apresentarem argumentos ocos na tentativa de me fazer desistir, mas elas só me deram mais vontade de continuar.

E, melhor, só me desafiaram a mostrar a fraqueza de suas concepções e, acima de tudo, provar a elas que estão erradas e que prontuários médicos não comportam vida.

São estruturas frágeis e ocas.

Tão equivocadas como os indivíduos que só veem fragilidade em mim.

Só isso.

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