Quem é o real “surdo” nas relações de consumo com quem não ouve?

surdez

Sou deficiente auditivo desde 2010. Já falei disso.

Apesar do fato da fala estar ligada diretamente à audição, não perdi a fala totalmente. Ainda falo.

No início, me irritava (e até hoje ainda me irrita) profundamente o fato de que atendentes e/ou prestadores de serviços não ligarem a surdez ao fato, em geral, de NÃO OUVIR NADA e insistem(iam) a começar a tagalerar.

Antes, é claro que sempre levava um “intérprete” (parente, amigo, namorado etc) para facilitar as coisas. Assim, evitava problemas que, à época, já eram muito mais numerosos.

Somente tempos depois, comecei a usar o celular como aliado. Melhorou. O número de problemas de comunicação foi reduzido. Mas sei que serão eternos.

Você deve estar pensando:

“Qual é o problema em ter um ‘intérprete” para facilitar toda vez em que precisa de algo?”.

Se você ouve e acha que é um problema mínimo, está errado.

Convivo com dificuldades de comunicação já há quase nove anos, quando estou com alguém da minha família, nem consigo abrir a boca ou pegar o celular para descrever aos atendentes/prestadores de serviços do que preciso.

Parece que é o acompanhante familiar quem precisa do produto/serviço. Eu viro só espectador de conversas/negociações alheias.

A mesma coisa acontece em hospitais. Médicos e os demais profissionais só falam com os acompanhantes. Mas este é outro capítulo.

Não costumo discutir questões quanto à deficiência auditiva com outras pessoas com o mesmo problema. Nem sei o que elas acham disso.

Para mim, isto é negativo.

Além da questão de orgulho pessoal mesmo e também de independência porque não quero passar a vida dependendo de alguma pessoa para obter algo, isto também te diminui. Faz-te sentir menos importante do que outras que não precisam de intermediação.

À parte disto, vejo uma questão mais ampla, mais empática, mais social.

EMPATIA

Além de deficiente auditivo, também sou um consumidor exigente. Não acho dinheiro na rua. Trabalho para obtê-lo e exijo atendimento adequado. Utilizo o mesmo dinheiro que é usado por quem ouve.

Simples assim.

Se eu precisar de um ‘intérprete” toda vez em que for a algum lugar comprar ou obter um produto/serviço, para que vou lá?! Bastaria dizer o que preciso pro “intérprete” e ele mesmo iria. Sozinho. Não seria mais fácil?!

ATENDIMENTO ADEQUADO JÁ ESTÁ INCLUÍDO NO PREÇO 

Para mim, nas relações de consumo, não é função do deficiente auditivo facilitar a comunicação. É o atendente/prestador de servidor quem deve fazer isso.

No meu caso, alguns têm preguiça de escrever/digitar e/ou, no caso de outros deficientes auditivos, gesticular. Só querem vender, ganhar dinheiro. Querem isso? Façam para merecer.

Exijo ser atendido adequadamente. Não tô pagando?! O atendimento adequado já está incluído no preço.

Pode me chamar de chato, insuportável, o diabos a quatro etc, mas SE TODA VEZ EM QUE EU PRECISAR DE UM ‘INTÉRPRETE” NUMA RELAÇÃO DE CONSUMO, A SOCIEDADE BRASILEIRA NUNCA MUDARÁ.

Nem todo deficiente auditivo tem celular, nem todo deficiente auditivo sabe Libras e nem é obrigado a saber. A obrigação de facilitar a comunicacação é dos estabelecimentos, atendentes e prestadores de serviço etc.

Se não, para que pagamos impostos e/ou pagamos pelos produtos e serviços?!

Para ver “palestras” de vendedores e prestadores de serviços, que parecem não “ouvir” a lógica?

Ou que parecem não perceber a burrice da prática. Ou foram mal treinados? Não sei.

Quem são os reais deficientes nestas conversas?!

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